Vales da Uva Goethe

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VALES DA UVA GOETHE
 
Trajetória da Vitivinicultura da Itália até o Brasil em Urussanga, SC:
 
A história da produção vinífera na região de Urussanga se confunde com a história da imigração italiana no final do século XIX. Colonizada por italianos a partir de 1877, a região conheceu a cultura da videira desde o mesmo período.
Santa Catarina é composta basicamente de duas regiões, o litoral e o planalto. A região de Urussanga está situada na porção sul do litoral catarinense, no início das elevações da Serra Geral, coberta pela vegetação nativa da Mata Atlântica.
 
O processo de instalação dos colonos italianos na região de Urussanga esteve sob a responsabilidade do engenheiro maranhense Joaquim Vieira Ferreira. O acesso a esta região era muito precário. Em 1877, os primeiros colonos chegaram à Santa Catarina pelos portos de Florianópolis e, em seguida, Laguna. A partir de Laguna, subiram o rio Tubarão em canoas e daí seguiram a pé ou em carros de boi até o destino. O primeiro núcleo a ser fundado na região foi Azambuja, neste mesmo ano. No ano seguinte, 1878, foi fundada Urussanga. Alguns anos depois, em 1884, devido à construção da estrada de ferro D. Tereza Cristina, surge Pedras Grandes.
 
Videiras foram plantadas logo no início da colonização. Trazidas da Itália nos navios, cobertas com musgos para sobreviver à viagem, as primeiras videiras cultivadas na região foram as de Adamo Ceron no rio Carvão e logo em seguida por outras famílias no Rancho dos Bugres. Com as primeiras colheitas teve início também a produção de vinho. A produção de vinho nas colônias era desenvolvida por praticamente todas as famílias. Cada um produzia seu próprio vinho para consumo, para o “gasto”. Já em 1887, apenas dez anos após sua fundação, a colônia Azambuja sozinha produzia 8.700 litros de vinho colonial nos porões familiares. Na mesma época, os colonos de Urussanga produziram 13.600 litros. Já entre 1892 a 1906 foram exportados de Urussanga 10.580 litros.
 
 
Chegada da Uva Goethe em Urussanga:
 
Durante a construção da estrada de ferro Dona Thereza Cristina, como objetivo de melhor escoar os produtos da colônia, em especial o recém descoberto carvão mineral, no início do século XX, chega ao município o regente do consulado italiano, Sr. Giuseppe Caruso MacDonald, cuja função era acompanhar as colônias de imigrantes italianos em Santa Catarina, apoiando os colonos e enviando relatórios à Itália. O Sr. Caruso MacDonald nasceu na Itália, era advogado e jornalista e veio ao Brasil para trabalhar, inicialmente, em São Paulo.
 
Após ser nomeado regente consular em Florianópolis passou a percorrer o estado a cavalo ou a pé e optou por se estabelecer em Urussanga. Escrevia um jornal chamado La Pátria que circulava entre os colonos onde, entre outras coisas, dava instruções em italiano sobre o plantio de uva na região. A relação do Sr. Caruso MacDonald com São Paulo permitiu que ele mantivesse contato com o imigrante italiano Benedito Marengo, encarregado dos viveiros do fazendeiro Luiz Pereira Barreto. Marengo foi o responsável pela introdução de diversas variedades de uvas no Brasil. Uma destas variedades foi trazida para a região de Urussanga pelo advogado italiano e distribuída aos colonos: a Goethe.
 
 
Uva Goethe e sua tipicidade:
 
A Uva Goethe, também chamada Rogers 1, é um híbrido de uvas européias(87% de Moscato de Hamburgo, Moscato de Alexandria e Schiava Grossa) e americanas (13%) com alta resistência fitossanitária. Foi desenvolvida nos EUA por E. S. Rogers no século XIX e em 1862 já aparecia em catálogos de plantas. Esta uva se adaptou bem às condições climáticas e aos solos locais e foi amplamente difundida entre os colonos. É uma imagem viva nas memórias da comunidade as plantações de uvas Goethe, que se espalhavam por toda a região, o aroma das videiras floridas e mais tarde dos frutos maduros e a grande extensão dos parreirais presentes até mesmo em áreas centrais, que hoje estão plenamente urbanizadas, como a Praça Anita Garibaldi.  A uva Goethe se tornou a uva mais típica, apresentando características específicas que a diferenciam das demais variedades cultivadas na região.
 
 
O auge da vitivinicultura na região de Urussanga e a Uva Goethe:
 
A produção comercial de vinhos de uva Goethe foi sendo ampliada desde sua introdução e várias vinícolas se estabeleceram, como as vinícolas Caruso MacDonald com o vinho Uru e Urussanga, Lorenzo Cadorin com o vinho Cadorin, Victorio Bez Batti com o vinho Samos chamado depois de Santé, Sílvio Ferraro com os vinhos Branco Salute, Domenico Fontanella com os vinhos Rosa em homenagem à sua esposa, Pietro Trevisol com o Trevisol, Pietro Damian com o Lacrima Christi, Ernesto Bettiol com o vinho Cometa além dos vinhos Primaz e Lótus produzidos na vinícola Cadorin, mas engarrafados e comercializados por Rosalino e Esperândio Damian.
 
Ademais de sua reconhecida superioridade na produção de vinhos de uva Goethe, um fato, porém tornou esta variedade ainda mais típica de Urussanga. Após sua introdução na região, algumas videiras apresentaram uma mutação. Esta mutação apareceu pela primeira vez nas mãos do Sr. Ângelo Nichele, comerciante local que também possuía algumas videiras. Este comerciante vendeu uma muda desta videira alterada para a família Giraldi de Azambuja. Esta família, que também produzia vinhos de uva Goethe, passou a produzir um vinho especial, sutilmente distinto daquele produzido com a Goethe original. Mas a razão da diferença entre os vinhos foi mantida em segredo. 
O vinho feito a partir da mutação da uva Goethe, bastante apreciado, era motivo de grande curiosidade entre os admiradores da bebida que desconheciam o verdadeiro motivo da sutil diferença. Somente muitos anos depois, já na década de 1950, Primo Giraldi negociou o segredo do vinho proveniente da mutação, por duas safras de uva Goethe, com a família Felippe e outros produtores de Azambuja, como os Quarezemin. Esta mutação da Goethe existe até hoje, somente em Urussanga, o que torna a uva Goethe uma variedade ainda mais peculiar e característica destas colônias.
 
Com o tempo, Urussanga passou a ser considerada a capital catarinense do vinho. Relatórios do Ministério da Agricultura indicam que Urussanga era o município do estado onde a produção de vinho era “mais apreciável, em relação à área do município”. Os vinhos produzidos receberam diferentes prêmios em exposições em todo o Brasil e nos EUA. Com muito orgulho, diversas famílias ainda mantêm os certificados de premiação. O vinho de uva Goethe da região de Urussanga era exportado para o litoral de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e outros estados no norte e nordeste do país. Documentos de antigas vinícolas indicam um intenso comércio destes vinhos de uva Goethe com diversas partes do país . É com orgulho que os moradores lembram que estes vinhos foram servidos durante o governo nacionalista de Getúlio Vargas, nas recepções no Palácio do Catete. O comércio com a então capital do país começou com a vinda de um viajante de origem portuguesa chamado Luiz Araújo, representante da casa de comércio Zenha Ramos Ltda do Rio de Janeiro, que se hospedou na vila da família Ferraro e apaixonou-se por uma das filhas da família, Helena . Este viajante além de casar-se com Helena Ferraro passou a comprar regularmente o vinho branco de uva Goethe da região para vendê-lo no Rio de Janeiro. Este comércio persistiu até meados dos anos 1960.
 
 
Vinho Goethe e a Subestação de Enologia de Urussanga – Ascenção e Declínio:
 
Devido à forte produção de vinho na região e aos títulos conquistados, o governo de Getúlio Vargas, através do Ministério da Agricultura, decidiu apoiar a vitivinicultura nesta região. Em 1942, foi fundado o Instituto de Fermentação para realizar pesquisas com diferentes espécies de uvas viníferas. No auge das pesquisas havia experimentos com cerca de 450 variedades de videiras. De todas estas variedades testadas, se destacou novamente a uva Goethe, com a qual continuavam sendo produzidos os vinhos que obtiveram reconhecimento nacional.
 
A instalação deste instituto facilitou a produção e comercialização de vinho. Antes de sua instalação os produtores necessitavam mandar seus produtos para outras regiões para que fossem analisados. Somente depois da análise o produtor obtinha a permissão de comércio. Em 1950 o instituto passou a chamar-se Subestação de Enologia de Urussanga. Paralelamente ao desenvolvimento das vinícolas, a região de Urussanga também foi marcada pela exploração do carvão. Localizada sobre a formação Rio Bonito, as jazidas de carvão mineral da região pertencem às camadas Barro Branco, Bonito e Irapuá. A existência de jazidas de carvão foi percebia prontamente pelos primeiros imigrantes recém chegados. Foi utilizada nos primeiros tempos como combustível para os fornos das ferrarias e em outras necessidades.
 
As primeiras empresas exploradoras de carvão surgiram no contexto da Primeira Guerra Mundial nas primeiras décadas do século XX. Em 1917, tem início a exploração de carvão mineral no rio Deserto, seguido, pouco tempo depois, pelas áreas do rio América e rio Santana. Profissionais de outras regiões do país como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo foram trazidas pelas empresas para trabalhar nos escritórios das mineradoras. Na década de 1940 muitas empresas exploravam carvão na região.
 
Para a população local, a indústria do carvão se apresentou como uma atividade de alta remuneração e curta carreira com aposentadoria precoce aos 15 anos de trabalho. Esta possibilidade de rápida acumulação financeira atraiu muitos agricultores da região. A princípio, estes agricultores dividiam sua jornada de trabalho entre as duas ocupações, trabalhando parte do dia nas minas e a outra parte na propriedade rural. Com o tempo, porém, estes trabalhadores foram abandonando as atividades agrícolas e dedicando-se exclusivamente à extração o carvão mineral.
 
Esta mudança no perfil ocupacional dos moradores da região provocou a diminuição da produção agrícola e conseqüentemente a necessidade de importar a matéria-prima das vinícolas. Pela primeira vez desde o início da colonização foi necessário importar uvas do Rio Grande do Sul. Muitos colaboradores atestam o declínio da atividade das vinícolas relacionado à ascensão da exploração carbonífera. No final deste período, na década de 1960, a Subestação de Enologia de Urussanga foi submetida ao Instituto de Pesquisas e Experimentação Agropecuária do Sul, em Pelotas/ RS. Enquanto esteve sob direção deste instituto, a estação perdeu seu perfil de pesquisa em vitivinicultura e passou a dedicar-se a outros produtos. Nessa época muitos documentos relacionados com a produção de uva e vinho na região foram extraviados ou mesmo queimados.
 
O declínio da atividade vitivinícola e a ascensão do carvão na década de 1940 coincidiram com um período difícil da história local. Durante o regime autoritário do Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial, a preocupação com o “perigo estrangeiro” e as ideologias nazi-fascistas serviu de justificativa para uma campanha quase militar para “abrasileirar” as comunidades etnicamente organizadas, como as antigas colônias da região de Urussanga . Até esta época a língua predominante na área era o italiano. O idioma, assim como a religiosidade, gastronomia, a arquitetura, as músicas, a lembrança dos antepassados pioneiros ligavam fortemente os descendentes de imigrantes entre si e com a antiga terra natal, a Itália.
 
A partir de 1937 teve início o processo de assimilação forçada nas antigas colônias de italianos em Santa Catarina. As primeiras atitudes foram a proibição do ensino em língua italiana e o fechamento de todas as instituições comunitárias que tivessem identificação com a Itália. Logo depois houve a proibição do uso da língua italiana também em público . Tais leis provocaram diversos constrangimentos na região de Urussanga, especialmente aos mais velhos, que não dominavam o idioma nacional, e alteraram fortemente as tradições familiares, como a transmissão do idioma através das gerações . 
A produção de vinho diminuiu pela falta de matéria-prima e pelas outras atividades estabelecidas na região, algumas vinícolas fecharam. Mas a produção de vinhos de uva Goethe se manteve e a fama da região foi perpetuada.
O perfil do município se modificou com o passar do tempo. Mas, quando nas décadas de 1970 - 1980, surgem em diferentes regiões do Brasil movimentos de busca por referências identitárias, a região de Urussanga também buscou reconstruir estas referências através da valorização do passado e da experiência dos ancestrais migrantes. Os primeiros movimentos foram as comemorações pelo centenário da imigração italiana e fundação do município de Urussanga.  Em seguida, empresários do município, como o Sr. Hédi Damian, apoiados por instituições como o Rotary clube e a antiga Acaresc (Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina), na pessoa de Genésio Mazon, iniciaram um trabalho de reorganização e incentivo à produção vitivinícola.
 
 
Busca das origens:
 
Já na década de 1980, outro projeto envolvendo produtores de vinho e a prefeitura municipal levou ao início da Festa do Vinho, festividade que movimenta a comunidade e ocorre até hoje a cada dois anos. Uma área conhecida como Retiro Pamir, foi adquirida pela prefeitura para a construção de um parque municipal com espaço para atividades culturais durante todo o ano e para abrigar a festa nos anos pares. Alguns anos depois outra festa completou o calendário da cidade, Ritorno Alle Origini realizada também no parque municipal Aldo Cassetari nos anos ímpares .
Ainda nesta época tiveram início as negociações para o Gemelaggio. Uma grande parte dos imigrantes desta antiga colônia vieram da região do Vêneto, especificamente da cidade de Longarone. Negociações intermediadas pelo consulado italiano levaram ao acordo selado com a inauguração da Praça Longarone, do monumento alusivo e da visita do prefeito da cidade italiana. A partir deste evento, muitos membros da comunidade conseguiram traçar a saga de suas famílias. Como a descendência na Itália é baseada na norma do jus sanguinis, muitos urussanguenses receberam a cidadania italiana.  
 
A partir daí teve início um novo movimento humano de retorno à Itália que se mantém ainda hoje. Diversos ítalo-brasileiros da região migraram ao continente de seus antepassados para trabalhar. Muitos fizeram migrações sazonais e outros tantos lá se estabeleceram definitivamente.
 
Na década seguinte, 1990, também os experimentos com uvas realizados pela antiga Subestação de Enologia foram retomados. A subestação tornou-se a Estação Experimental de Urussanga e passou a ser dirigida pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).  A cantina foi transformada em unidade didática de produção de vinhos e diversos cursos de capacitação de produtores foram implantados.
 
 
ProGoethe e Vales da Uva Goethe:
 
Atualmente um novo projeto tem movimentado a comunidade, relacionando o forte sentimento de identificação étnica ítalo-brasileira presente na região, a produção de vinho e o turismo: o projeto Vales da Uva e do Vinho Goethe. Produtores de vinho de uva Goethe da região criaram, em 2005, uma associação, PróGoethe. Apoiados pelo Sebrae (Serviço de Apoio Brasileiro às Micro e Pequenas Empresas), Epagri e Universidade Federal de Santa Catarina, os associados alicerçados no fator tipicidade, buscam o reconhecimento da qualidade e características exclusivas dos vinhos de uva Goethe de Urussanga, através de um selo de Indicação Geográfica. 
 
Através do selo de Indicação Geográfica conquistado em 2011 e implatado em 2013, fica garantida ao consumidor a qualidade e a tradicionalidade dos vinhos de uva Goethe. Para obter o selo é necessário o planejamento de diversas atividades buscando a qualificação e padronização dos vinhedos, das uvas e do vinho de Goethe, através de um intenso suporte técnico e econômico e o estabelecimento do enoturismo na região. Os produtos com este selo têm fortes significados histórico-culturais e estreitas relações com o mundo rural.
Além das características únicas do vinho de uva Goethe produzido na região de Urussanga, a profunda relação existente entre o vinho e a comunidade ítalo-brasileira torna este vinho ainda mais típico e característico do local. 

 

 

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